22/09/2016

Descarte, sim. Como um japonês



Quando o primo Reinaldo Simizu me indicou o livro 'A Mágica da Arrumação' (valeu, Rei!), best-seller mundial da japonesa Marie Kondo, lançado no Brasil em 2015, fui logo checar a abordagem da autora em relação ao desapego. De fato, para ensinar a organizar sua casa (e sua vida), Marie não cai no senso comum do "livre-se de tudo o que está sem uso há um ano"; ela trabalha a relação emocional que você mantém com cada objeto, incluindo roupas, calçados e acessórios - os alvos do Projeto Desapegão. Se a peça te traz alegria, diz o livro, guarde-o. Se não, descarte-o.

A princípio, entretanto, me pareceu um pouco irresponsável exatamente o uso do "descarte", do "jogue fora" e do "vai para o lixo" desprovido de qualquer viés sustentável. Afinal, estamos em tempos de simplificar a vida e nos livrar dos excessos, mas sem maltratar ainda mais nosso judiado meio ambiente (um dos temas, aliás, do post anterior). Não dá para sair jogando fora tudo aquilo que não nos faz feliz, né? Precisamos pensar no impacto ambiental do nosso desapego, considerando ações tão defendidas aqui: doação, troca, reciclagem...

A doação até surge em alguns momentos do livro, meio tímida. Reciclagem? Descarte ambientalmente responsável? Nada. Nadica.

Mas aí me veio um insight que, espero, pode explicar a ausência da abordagem ecossocial no "desfazer-se" de Marie Kondo: a autora vem do Japão. E o arquipélago - onde morei por um ano e meio - lacra quando o assunto é tratamento de lixo. Lá, meus caros, não tem essa de deixar o entulho indesejado na calçada e a limpeza pública que se vire. Você responde pelos seus próprios detritos. E deve aprender a separá-los, armazená-los e descartá-los, seguindo um protocolo extenso e rígido, sob pena de multa caso o descumpra.

Há regras, dias, locais e horários específicos para cada tipo de lixo - orgânico, papel, vidro, metal, roupas, aparelhos eletrônicos, revistas, etc. Quando o bagulho é grande, o cidadão ainda deve pagar para se livrar dele. Sim, senhor. E não pense que o 'migué' brasileiro funciona: todos os bairros contam com moradores-fiscais, que monitoram os pontos de coleta. Certa vez, me fiz de desentendido e joguei o lixo no dia errado; quando voltei para casa, ele estava na minha porta, com um bilhetinho do fiscal, deixando claro que só não fui multado porque era novo no bairro. Delícia, não?

Saiba mais sobre o descarte de lixo à japonesa neste post do blog Perdida no Japão, escrito por Thais Fioruci

Assim, meus queridos, acredito (ou quero acreditar) na ingenuidade de Marie Kondo em relação aos termos "descartar" e "jogar fora" além-Japão. Se para nós eles soam simplesmente como "tirar da frente", para Marie, já vêm embebidos na responsabilidade ambiental aplicada todo santo dia em sua terra-natal - e, portanto, óbvia demais para ser explicada no livro. "Descarte", na cabeça da autora, é (e sempre foi) sinônimo de sustentabilidade.

Ao ler a obra, please, pense e aja como um japonês. Arigatô.