22/07/2015

Cabelos caídos, ralo entupido e chuva no apê de baixo

A onipresença de uma juba sem corte há vários meses no cotidiano de um cidadão foi bem descrita por Agatha Kim, uma das parceiras do projeto 1 deste blog, na terceira edição do 'Update do cabelão'. "Para onde quer que eu olhe, ele (o cabelo) lá está. Tenho muitos fios, pesados e grossos, que deixam rastros pela casa toda: no ralo do banheiro, no tapete, no travesseiro…", contou Gai.

Comigo, entretanto, a situação se agravou. Não satisfeitos em surgir aos quilos no ralo do meu banheiro, filhos desgarrados do perucão solidário trataram de entupi-lo. E, com o entupimento, causaram também um lindo vazamento no apartamento de baixo, deixando sua dona bem feliz - ela me enviou até vídeos da "garoa". Vários vídeos.

A culpa doeu. Decidi então resolver o problema no braço, resgatando a coragem de algum ancestral samurai. Removi a tampinha do orifício, prendi a respiração e enfiei a mão nele com bravura, não tão grande quanto a necessária para segurar o vômito quando extraí, lá do fundo, um imenso e viscoso emaranhado capilar, que quase me mordeu.

Ainda traumatizado com a experiência - e sentindo nas mãos resquícios daquela textura bizarramente peculiar - , pensei em quantos fios já foram desperdiçados desde o início da missão, há nove meses. Certamente, se eu pudesse recuperar todos esses desertores, em todas as suas rotas de fuga, conseguiria doar, em outubro, não apenas um feixe de cabelo, mas uma peruca completa, das bem fartas.

Que pena tantas e tantas mechas solidárias terem ido pelo ralo - e que merda terem voltado para me assombrar.