25/05/2015

Sim. Simples



De tempos em tempos, tenho arroubos de limpar excessos. Abro o guarda-roupa obcecado em doar tudo o que está sem uso há mais de seis meses. Tiro do armário da cozinha aquele mundo de vasilhas emprestadas e inicio uma peregrinação para devolver todas. Limpo gavetas e estantes com eficiência e pragmatismo mecatrônicos.

Neste ano, entretanto, a coisa ficou mais abrangente - e dramática. Há alguns meses, cancelei três e-mails inativos. Me animei. Então, no início de maio, farto da profusão de comunicadores instantâneos no meu celular, desinstalei a maioria, incluindo o Whatsapp. Como não morri, fui mais longe: desativei a linha telefônica para pegar uma pré-paga, já que não me lembrava da última vez em que o telefone havia sido usado para falar e não digitar. Algumas semanas depois, dei fim ao Instagram e ao Google+ deste blog - como escrevi certa vez, é muita rede social para pouca vida.

Transtorno obsessivo-compulsivo? Chatice? Higienismo? Loucura?

Na real, eu gosto mesmo é de simplificar.

Seria até assunto para um novo blog, mas me sinto muito bem representado pelo que meu (não por acaso) irmão gêmeo, Maurício Oyama, escreve. Em Uma Simples Meta, ele mostra como a simplicidade voluntária ganha importância em uma cultura de tanto supérfluo transformado em essencial.

E é atrás do essencial que corro a cada um dos meus arroubos aparentemente irracionais. Daquilo que, afinal, faz falta. Falta mesmo. Porque, acredito, espaços vazios precisam ser preenchidos com coisas importantes - e a gente passa tempo demais botando bobagens e mais bobagens neles. Além de gastar um esforço gigantesco enchendo essas bobagens de atenção.

Por isso, não se trata apenas de eliminar excessos, mas de ajustar o foco. Simplificar a vida, talvez, signifique deixar nossa existência mais leve para mantermos o foco no primordial.

Foco no blog e não em redes que dispersam a sua mensagem; foco em uma ferramenta de comunicação eficiente e não em oito que só fazem barulho; foco em calças para uma pessoa e sete dias na semana, não para vestir um Pacaembu lotado por 12 anos; foco nas pessoas reais e não nos grupos do Whatsapp; foco em respeito e não em atenção.

Foco, enfim, no que não morre - e não no que o tempo apaga.