11/02/2015

Uma viagem pelas raízes históricas dos cabelos



A aflição de completar 40 anos, no último dia 8, foi amenizada pelo carinho dos amores e amigos, expresso em gestos, palavras... e presentes especiais. Um deles veio do casal sensacional Fabiano e Stella Ribeiro (parceira nossa, lembra?) e teve este blog como alvo: o 'Livro do Cabelo' (Editora Leya), escrito pela jornalista e pesquisadora Leusa Araujo. Muito graçola!

Linda e ricamente ilustrada, a obra vai bem além de relatar os modismos e os estilos capilares de cada época, trazendo um registro histórico sobre o significado da juba (ou da falta de) nas diferentes culturas e religiões. O leque de assuntos abrange tópicos tão diversos quanto política, celibato e bruxaria.

"Durante séculos, o tipo de penteado funcionou como uma espécie de documento de identidade, uma declaração de pertencimento das pessoas a determinado sexo, grupo, idade, religião, profissão e posição ocupada na comunidade", escreve Leusa.



Ao alcançar o século 21, a linha histórica foca o mercado do megahair e a transformação das madeixas em produto bilionário. "Nos anos 2000, o quilo do cabelo chegou a alcançar 400 euros, movimentando, só no mercado europeu, aproximadamente 30,7 bilhões de euros anuais", conta a autora. Que loucura, hein?

E o livro não se restringe ao universo feminino: mostra também a evolução das madeixas masculinas, dos primatas a Elvis Presley. Até barbas e bigodes ganham espaço na obra, com direito a linha do tempo e curiosidades como a transformação do rosto peludo de Fidel Castro em valor estratégico para a guerrilha.

Há ainda um capítulo inteiro dedicado aos cabelos dos negros, que sofrem com o estigma de "cabelo ruim" mesmo após os movimentos libertários assinados pelos dreadlocks e o black power. "A divisão entre pessoas de 'cabelo ruim' e 'cabelo bom' é indissociável da deportação dos africanos para o resto do mundo na condição de escravos. É a partir do escravismo que compreendemos como o estigma sobre o cabelo negro é constituído e como este nó se desfaz, no decorrer dos últimos séculos, numa verdadeira trajetória de libertação."



Um capítulo especialmente interessante para este blogueiro aqui é sobre as perucas. Apesar de não tratar da doação de fios (meu primeiro projeto no 365), Leusa aborda a questão das pessoas com câncer. "A peruca tornou-se importante acessório para pacientes submetidos a quimioterapia (...). No final do século 20, o doloroso trauma da perda do cabelo (...) passou a ser discutido abertamente pela sociedade, o que resultou na melhora do processo de aceitação da nova aparência."

Por fim, a autora fala dos cuidados com a juba (a gente também currrrrte) ao relatar a evolução dos shampoos e das tinturas e montar um pequeno dicionário de nomes curiosos de artefatos capilares e penteados. Você sabe o que é bigudi, umutinas, trepa-moleque?

Entre tantas descobertas proporcionadas pelo livro, uma se sobressai: a de que cabelo não simboliza mera vaidade. Para o monge que abdica dele ou para a criança com câncer que recebe uma peruca, os fios constituem força, valor e identidade.

Belíssimo incentivo para a missão do perucão solidário, não? Obrigado, Teca e Fabi! :)